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quinta-feira, 4 de abril de 2013

Invasão à Casa Branca: Quando o patriota é inconveniente

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)


Já falei sobre o patriotismo em Hollywood em outro texto aqui mesmo no CineDude. Vejo-me obrigado a voltar ao assunto por causa de Invasão à Casa Branca (Olympus Has Fallen).

O filme conta a história de como o presidente dos Estados Unidos (Aaron Eckhart, de Diário de um Jornalista Bêbado) é vítima de um atentado em que ele e sua equipe são colocados no bunker juntos com os inimigos. Cabe ao agente secreto Mike Banning (Gerard Butler, de Redenção) salvar a pátria.

A dinâmica é bem parecida com a de Duro de Matar (1988): um homem com poucos recursos bélicos contra um grupo de bandidos que invadiu um prédio. A diferença entre os dois títulos é que o lançamento tem menos senso de humor e muito mais patriotismo.

Há algumas cenas de passagem com a bandeira dos Estados Unidos sempre ao fundo e outros clichês. No entanto, um dos maiores exemplos está no momento em que a Secretária de Defesa (Melissa Leo, de O Voo) é pega pelo vilão para ser torturada e potencialmente morta.


Uma pessoa normal iria chorar, rezar ou chamar pelas pessoas amadas. A tal Ruth McMillan prefere repetir o juramento à bandeira, com a boca toda sujinha de sangue.

Atualmente, as bilheterias estrangeiras somam 70% do faturamento de um filme hollywoodiano. Portanto, lançar um longa com um discurso tão pró-EUA é um tiro no pé. Quando o filme em questão traz o patriotismo em cenas pontuais, que poderiam ser cortadas ou trocadas, é pior ainda.

Com alguns dias a mais na edição e a regravação de pedaços de cenas, Invasão à Casa Branca poderia ganhar uma versão internacional menos ofensiva à nossa dignidade.

O argumento de que tal medida seria um hercúleo esforço de produção não cola. Se Angelina Jolie conseguiu gravar Na Terra do Amor e do Ódio duas vezes (uma com diálogos em inglês e outra na língua nativa dos personagens), esse longa também conseguiria.


Invasão à Casa Branca (Olympus Has Fallen)
Direção: Antoine Fuqua
Roteiro: Creighton Rothenberger, Katrin Benedikt
Elenco: Gerard Butler, Aaron Eckhart, Finley Jacobsen, Dylan McDermott, Rick Yune, Morgan Freeman, Angela Bassett, Melissa Leo, Radha Mitchell, Ashley Judd
Duração: 120 minutos
País: EUA

Nota: 4

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Estreias da semana

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)


Caça aos Gângsteres

Depois da Segunda Guerra Mundial, um grupo de policiais de Los Angeles se reúne para acabarem com o reinado do mafioso Mickey Cohen (Sean Penn, de Aqui É o Meu Lugar). A namorada do criminoso (Emma Stone, de O Espetacular Homem Aranha) está envolvida com um dos seus inimigos na corporação (Ryan Gosling, de Drive).

O diferencial do filme está em misturar o antigo com o novo. O charme de época convive bem com tomadas longas falseadas pelo uso de efeitos visuais. A estrutura do roteiro parece com a de um videogame, o que pode cativar os espectadores jovens.

LEIA MAIS:
Perfil Ryan Gosling (SaraivaConteúdo)

Caça aos Gângsteres (Gangster Squad)
Direção: Ruben Fleischer
Roteiro: Will Beall
Elenco: Sean Penn, Josh Brolin, Ryan Gosling, Emma Stone, Nick Nolte, Anthony Mackie, Robert Patrick, Michael Peña, Giovanni Ribisi
Duração: 113 minutos
País: EUA

Nota: 6


Inatividade Paranormal

Kisha (Essence Atkins, de A Filha do Pastor) muda-se para a casa do namorado (Marlon Wayans, de G.I. Joe - A Origem de Cobra), mas acontecimentos estranhos se desenrolam na residência. O casal câmeras para registrar e investigar os eventos.

A turma que realizou a franquia Todo Mundo em Pânico (2000-2013) agora mira suas piadas em Atividade Paranormal (2007-2012). Praticamente não há paródias a outros filmes na nova comédia. O problema é que isso limita o roteiro, que não é tão engraçado quanto se espera dos realizadores

Inatividade Paranormal (A Haunted House)
Direção: Michael Tiddes
Roteiro: Rick Alvarez, Marlon Wayans
Elenco: Marlon Wayans , Marlene Forte, Essence Atkins, David Koechner, Dave Sheridan, Nick Swardson, Alanna Ubach, Andrew Daly, Cedric the Entertainer
Duração: 86 minutos
País: EUA

Nota: 3


O Lado Bom da Vida

Depois de sair de um clínica para doentes mentais, o ex-professor Pat (Bradley Cooper, de As Palavras) volta a morar com os pais e tenta reconstruir sua vida. Ele conhece a viúva Tiffany (Jennifer Lawrence, de Jogos Vorazes) e de uma relação conturbada ambos podem encontrar a superação.

As numerosas indicações ao Oscar e Globo de Ouro podem enganar, então é aconselhável não se influenciar por isso. O filme é mediano e foi o lobby que o colocou na temporada de premiações. As atuações são boas, mas o roteiro também merece elogios, apesar de certa previsibilidade. O enredo mostra uma coleção de personagens fragilizados mentalmente e todos precisam de algum grau de ajuda.

LEIA MAIS:
Matéria: Comédias do Oscar (SaraivaConteúdo)

O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook)
Direção e Roteiro: David O. Russell
Elenco: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Jacki Weaver, Chris Tucker, Anupam Kher, John Ortiz, Shea Whigham, Julia Stiles
Duração: 122 minutos
País: EUA

Nota: 7


Os Miseráveis

Na França pós-Revolução, Jean Valjean (Hugh Jackman, de Gigantes de Aço) tentou esconder seu passado criminoso, mas seu perseguidor (Russell Crowe, de 72 Horas) permanece em seu encalço. O protagonista resolve adotar Cosette (Amanda Seyfried, de O Preço do Amanhã) e manter-se um fugitivo.

Os mais de 150 minutos de cantoria podem ser cansativos até para amantes de musicais. Alguns momentos com falas não cantadas fariam bem à fita. Por outro lado, a impressionante atuação de Hugh Jackman faz valer o ingresso.

LEIA MAIS:
Matéria: A experiência do elenco em musicais (SaraivaConteúdo)

Os Miseráveis (Les Misérables)
Direção: Tom Hooper
Roteiro: William Nicholson
Elenco: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Sacha Baron Cohen, Helena Bonham Carter, Eddie Redmayne, Aaron Tveit, Samantha Barks, Daniel Huttlestone
Duração: 158 minutos
País: Reino Unido

Nota: 7

Os Miseráveis foi avaliado pela leitora Thaíse Costa

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O Impossível X A Negociação: Atores opostos

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)


Estreiam nesta semana no Brasil dois filmes que poderiam ter passado em brancas nuvens pela temporada de premiações, mas foram salvos por seus protagonistas. Cada um recebeu uma indicação ao Globo de Ouro e só. O interessante é que cada intérprete traça um caminho diferente em seu trabalho.

Em O Impossível (Lo imposible), Naomi Watts (J. Edgar) interpreta a mãe de uma família de sobreviventes do tsunami que abalou o Sudeste Asiático no final de 2004. Severamente ferida, Maria fica isolada com seu filho mais velho (Tom Holland) e ambos acham que os demais membros da família estão mortos.

O desafio da atuação de Naomi está em conciliar muitas emoções fortes, ao mesmo tempo em que convence que sua vida corre risco por causa dos ferimentos. Ela precisa mostrar a dedicação materna e o pesar pelas perdas que acredita ter sofrido. No geral, um personagem pelo qual é fácil de torcer.


Já o caso de Richard Gere (Amelia) em A Negociação (Arbitrage) é totalmente diferente, já que ele interpreta um anti-herói. Robert Miller é um empresário que é a imagem do sucesso: milionário e pai de uma família feliz, ele ainda acha tempo para se dedicar a obras de caridade.

O filme denuncia o jogo de aparências da sociedade capitalista. Na verdade, Robert recorre a fraudes para mascarar as enormes perdas de suas empresas. Seu casamento não está tão bem assim e ele mantém uma amante (Laetitia Casta, de Gainsbourg). Para deixar tudo mais interessante, Miller se envolverá em uma investigação criminal.

O triunfo de Richard Gere é conseguir segurar esse complexo personagem. Não podemos torcer cegamente por ele, mas também não se pode perder o interesse pelo filme. Graças a um roteiro competente defendido por um ator inspirado, a mensagem de A Negociação é transmitida.

O Impossível (Lo imposible)
Direção: Juan Antonio Bayona
Roteiro: Sergio G. Sánchez
Elenco: Naomi Watts, Ewan McGregor, Tom Holland, Samuel Joslin, Oaklee Pendergast
Duração: 114 minutos
País: Espanha

Nota: 7

A Negociação (Arbitrage)
Roteiro e Direção: Nicholas Jarecki
Elenco: Richard Gere, Susan Sarandon, Tim Roth, Brit Marling, Laetitia Casta, Nate Parker
Duração: 107 minutos
País: EUA

Nota: 7

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Estreias da Semana

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)


Bullying

Documentário sobre crianças e adolescentes que são torturados psicologicamente na escola nos Estados Unidos. O filme mostra diversos personagens que são incomodados por seus colegas por motivos variados (diferenças físicas ou orientação sexual, por exemplo). O que motiva a produção são casos de jovens que se suicidaram por causa da pressão.

A fita mostra a apatia das autoridades escolares e a mentalidade estadunidense que oprime as pessoas consideradas diferentes. Prova disso é o desempenho pífio que os atletas paraolímpicos dos Estados Unidos têm em comparação com os competidores tradicionais. Infelizmente não há na fita qualquer menção aos massacres realizados por garotos oprimidos, como em Colombine.

Bullying (Bully)
Direção: Lee Hirsch
Roteiro: Lee Hirsch, Cynthia Lowen
Elenco: -documentário-
Duração: 98 minutos
País: EUA

Nota: 7

A Escolha Perfeita

Beca (Anna Kendrick, de O Que Esperar quando Você Está Esperando) chega à universidade a contragosto. O sonho dela é ser produtora musical e a faculdade é vista apenas como um obstáculo. Por causa de um pacto com seu pai, ela entra em um grupo de cantoras à capela. É por causa da competição musical que começa o envolvimento romântico de Beca com Jesse (Skylar Astin, de Aconteceu em Woodstock), cantor de um grupo rival.

O musical tem momentos cômicos engraçadinhos, mas o começo do enredo traz valores questionáveis. A protagonista quer abandonar os estudos e reprova canções antigas. Felizmente essas falhas de caráter fazem parte da transformação no desenvolver do roteiro.

A Escolha Perfeita (Pitch Perfect)
Direção: Jason Moore
Roteiro: Kay Cannon
Elenco: Anna Kendrick, Skylar Astin, Ben Platt, Brittany Snow, Anna Camp, Rebel Wilson, Alexis Knapp, Ester Dean, Hana Mae Lee
Duração: 112 minutos
País: EUA

Nota: 5

Infância Clandestina

Um garoto volta à Argentina de forma ilegal durante a ditadura. Seus pais continuam na luta contra o regime totalitário.

O filme consegue explorar o ponto de vista do garoto sobre o tema, como O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias. O problema está no desfecho, que não combina tanto com o restante da fita. Há no roteiro um grande compromisso com a história real, o que complica do lado dramático.

LEIA MAIS:
Entrevista com Benjamín Ávila e Marcelo Müller (SaraivaConteúdo)
Visão Estrangeira: Benjamín Ávila: Dona Flor e Seus Dois Maridos (BRCine)

Infância Clandestina (Infancia Clandestina)
Direção: Benjamín Ávila
Roteiro: Benjamín Ávila, Marcelo Müller
Elenco: Natalia Oreiro, Ernesto Alterio, César Troncoso, Cristina Banegas, Teo Gutiérrez Romero
Duração: 112 minutos
País: Argentina, Espanha, Brasil

Nota: 8

Infância Clandestina foi visto no Festival do Rio 2011.

Na Terra do Amor e do Ódio

Angelina Jolie estreia na direção de longa de ficção com a história de amor entre um militar sérvio e uma artista bósnia quando estoura a Guerra da Ioguslávia. O resultado dessa relação – e do filme – é desastroso.

LEIA MAIS:
Crítica do filme

A Sombra do Inimigo

Um detetive terá o maior desafio de sua carreira: a caçada a um sádico assassino em série. A história de perseguição é boa, mas as falas do filme são forçadas.

LEIA MAIS:
Crítica comparativa com A Última Casa da Rua


Sudoeste

O filme se passa em uma vila isolada onde o tempo parece ter parado, exceto para Clarissa. Em apenas um dia, ela passa de uma garota (Raquel Bonfante, de Chico Xavier), para uma mulher formada (Simone Spoladore, de Luz nas Trevas) e termina como uma idosa (Regina Bastos, de Cafundó).

Aparentemente a fotografia em preto e branco, a história fantástica e a janela de enquadramento ampliada (3.66 : 1) não são suficientes para a produção conseguir ser cult. Para ganhar o status sonhado, todos os diálogos contêm pausas desnecessárias entre as falas. Essa manobra conquista alguns corações, mas para mim parece só prepotência.

Direção: Eduardo Nunes
Roteiro: Guilherme Sarmiento, Eduardo Nunes
Elenco: Simone Spoladore, Raquel Bonfante, Julio Adrião, Dira Paes, Mariana Lima, Everaldo Pontes, Victor Navega Motta, Regina Bastos
Duração: 128 minutos
País: Brasil

Nota: 5

Sudoeste foi visto no Festival do Rio 2011.

A Última Casa da Rua

Elissa se muda para um novo lar e seu vizinho é o único sobrevivente de um massacre ocorrido na casa ao lado. Se algum dos dois fosse um pouco mais inteligente, o filme não existiria.

LEIA MAIS:
Crítica comparativa com A Sombra no Inimigo

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Rânia X Irmão: Além do talento

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)


Existem pessoas que são contra projetos assistencialistas por eles não criarem “condições plenas de igualdade”. Há várias manifestações nas redes sociais que comparam o salário ganho honestamente com as “ajudas para vagabundos” concedidas pelo governo. Para esse público, o II Festival Lume ofereceu ao menos duas oportunidades de ver o outro lado da questão.

A personagem título de Rânia é uma jovem dançarina de Fortaleza interpretada por Graziela Felix. De origem pobre, ela tem de usar muito jogo de cintura para conseguir levar adiante o sonho de participar de uma companhia de dança profissional. Um dos obstáculos mais próximos da menina é a falta de apoio da família. Logo no começo do filme, a mãe pede a Rânia que ela se atrase para o ensaio para poder ajudá-la.

O longa acredita na força da protagonista e conta a história por fragmentos, em uma economia narrativa acima da média. Também há fé no talento da dançarina, tanto que as cenas de dança não trazem grandes movimentos de câmera.


A mesma tática pode ser vista em Irmão (Hermano), mas nos campos de futebol. Como em Rânia, usa-se atores estreantes e eles dão conta do recado.

Gato (Fernando Moreno) é um garoto pobre com grande potencial para se tornar um jogador de futebol. Ele é tão apaixonado pelo esporte que toda noite usa uma bola como travesseiro. De manhã, ele faz abdominais na frente da televisão, que exibe gols da seleção venezuelana.

O rapaz tem o apoio familiar, mas os vários problemas ao seu redor dificultam seu caminho até um time profissional. Gato convive com violência na favela onde mora, testemunha garotas que engravidam e são abandonadas, e outras mazelas.

As semelhanças com a realidade e o amor futebolístico no Brasil são notáveis. No final, Irmão torna-se uma mistura de Linha de Passe com Bróder.

Rânia
Direção: Roberta Marques
Roteiro: Luisa Marques, Roberta Marques
Elenco: Graziela Felix, Mariana Lima, Nataly Rocha
Duração: 85 minutos
País: Brasil

Nota: 6

Irmão (Hermano)
Direção: Marcel Rasquin
Roteiro: Rohan Jones, Marcel Rasquin
Elenco: Fernando Moreno, Eliú Armas, Beto Benites, Gonzalo Cubero, Marcela Girón
Duração: 97 minutos
País: Venezuela

Nota: 6

sábado, 2 de junho de 2012

White Mercenary X Além das Montanhas: Relatos pessoais

por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)


Está cada vez mais em voga entre os documentários transformar experiências pessoais em filmes, como fez recentemente Lucia Murat com Uma Longa Viagem. No Olhar de Cinema há pelo menos dois exemplos dessa tendência intimista.

Em I Am White Mercenary ("Eu Sou Mercenário Branco", em tradução literal), Saied Jaf defende-se das acusações de que ele teria participado do genocídio de Anfal, no Iraque. Ele percorre várias localidades atrás de pessoas cujas vidas ele salvou na época do massacre.

O problema do documentário é que ele é repetitivo demais. Os relatos são muito parecidos e não há informações novas sendo entregues com constância. Por outro lado, há uma grande consciência cinematográfica, com enquadramentos interessantes e uma direção de fotografia elogiável.


Apesar de contar uma história aparentemente menor, Para Além das Montanhas (Yama No Anata) tem um roteiro mais equilibrado. Aya Koretzky conta sua experiência de imigrante japonesa em Portugal. Grande parte do filme é composta por arquivos de vídeo de seus pais e por cartas trocadas com o Japão.

Assim como Tokiori, o filme não consegue discutir algumas contradições dos imigrantes japoneses. Os pais de Aya nunca falam sobre a possibilidade de voltar ao Japão e mesmo assim ela é matriculada em uma escola japonesa. Uma atitude que não colabora para a adaptação da menina no novo país.

Espera-se que essa discussão necessária possa ser travada em breve no cinema.

I Am White Mercenary (Man Yek Mozdore Sefid Hastam)
Roteiro e Direção: Taha Karimi
Elenco: Saied Jaf
Duração: 63 minutos
País: Iraque

Nota: 5

Para Além das Montanhas (Yama No Anata)
Roteiro e Direção: Aya Koretzky
Elenco: Aya Koretzky
Duração: 59 minutos
País: Portugal

Nota: 6

I Am White Mercenary e Para Além das Montanhas foram assistidos no Olhar de Cinema (Curitiba, PR)

terça-feira, 24 de abril de 2012

As Idades do Amor: Ordem dos fatores

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)



Por não ser uma ciência exata, o cinema tem resultados distintos se a ordem dos fatores por alterada. As Idades do Amor (Manuale d'am3re) prova ter inteligência ao ordenar suas histórias de maneira a manter o espectador interessado em saber o que vem a seguir.

A primeira história de amor apresentada traz um elenco jovem e atraente. Roberto (Riccardo Scamarcio, de O Primeiro que Disse) é um advogado que está prestes a se casar. Ele vai a uma pequena cidade durante uma viagem de trabalho e fica maravilhado pelo local. O coração de Roberto é conquistado pelo estilo de vida da população e especialmente fascinado por Micol (Laura Chiatti, de Um Lugar Qualquer).

O rapaz envolve-se nesse caso adúltero, mas não é julgado pelo roteiro. A mensagem de As Idades do Amor é que o coração não segue as mesmas regras que a sociedade. Segundo o filme, o ser humano não tem controle total sobre suas ações e sentimentos.

A segunda história também traz o adultério como tema. Fabio (Carlo Verdone, de Grande, Grosso e Verdone) é um âncora de televisão que se envolve com a instável Eliana (Donatella Finocchiaro, de Baarìa), apesar de ser um homem casado. A esperteza está em deixar o enredo mais fraco exatamente no meio do filme, quando o público já sabe que é possível melhorar.


Finalmente, As Idades do Amor termina com uma história mais sentimental e menos sexual, além de contar com os nomes mais conhecidos do elenco. Adrian (Robert De Niro, de Os Especialistas) é um americano que está morando na Itália. Ele se apaixona por Viola (Monica Bellucci, de A Informante), filha de seu amigo. O amor entre os dois floresce independente da diferença de idade entre eles.

Os grandes astros funcionam como isca e, por isso, ficam no final da projeção. Se a ordem dos enredos fosse inversa, boa parte do público logo perderia o interesse e abandonaria a sala de cinema depois do primeiro terço do filme.


As Idades do Amor (Manuale d'am3re)
Direção: Giovanni Veronesi
Roteiro: Ugo Chiti, Giovanni Veronesi
Elenco: Robert De Niro, Monica Bellucci, Riccardo Scamarcio, Michele Placido, Laura Chiatti, Donatella Finocchiaro, Valeria Solarino, Carlo Verdone, Marina Rocco
Duração: 125 minutos
País: Itália

Nota: 4

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Isto não É um Filme X Dias Verdes: Algo podre no reino

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)


Se as declarações polêmicas sobre judeus e homossexuais proferidas pelo presidente Mahmoud Ahmadinejad fossem o único problema do Irã, as coisas seriam mais fáceis. Dois documentário que estavam na programação da Mostra 2011 mostram que há muito mais a ser averiguado em relação ao país.

Isto não É um Filme (In film nist) mostra a perseguição que a classe artística sobre no Irã. O cineasta Jafar Panahi (Fora do Jogo) foi condenado a seis anos de prisão e a uma proibição de fazer filmes ou sair do país por vinte anos. Nada na sentença o proíbe de ler roteiros já existentes ou de dar depoimentos para um documentário.

Assim, Jafar descreve um filme que ele faria. Para isso, usa apenas seu apartamento como locação e traça com fita adesiva a planta da locação no tapete de sua sala. Nesse momento, Dogville (2003) vem à cabeça.


No meio da descrição das cenas, Panahi deixa transparecer suas frustrações. Outro ponto interessante nessas digressões é a forma como o diretor usa experiências de seus filmes anteriores para conectar suas idéias e argumentos. A consciência de Jafar sobre sua própria obra é comovente.

A perseguição e a censura no Irã são tristes, mas o amor à arte dos perseguidos é muito maior. Prova disso é a repercussão mundial de Isto não É um Filme.

Esse cenário infeliz é apenas uma conseqüência das atitudes do governo de Ahmadinejad. O que aumenta a indignação é perceber que a eleição desse presidente aconteceu de forma no mínimo estranha.


O documentário Dias Verdes (Ruzhaye Sabz) mostra as vésperas das polêmicas eleições. As ruas estavam tomadas por simpatizantes do candidato da oposição e todos estavam confiantes na vitória. Para a tristeza geral (e posteriores protestos), Ahmadinejad virou o resultado no final da apuração. Ou as eleições foram fraudadas, ou algo muito estranho aconteceu.

Mahmoud deve ter um grande número de apoiadores silenciosos, que foram às cabines de votação sem serem percebidos pelos eleitores do outro candidato (eleitores de Mahmoud até foram ouvidos pelo documentário, mas eram difíceis de ser encontrados). Coincidentemente, a esmagadora maioria desses votos calados foi computada no final da apuração. O mais estranho em toda essa situação é a disposição da comunidade internacional em aceitar essa segunda teoria.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Inquietos: Equilíbrio temático

  por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)


Alguns filmes abraçam seus temas com tamanha força que o excesso de elementos temáticos incomoda. Para falar de morte, Inquietos (Restless) consegue manter-se no fino equilíbrio de reforçar seu tema a todo tempo sem cansar o espectador.

A morte permeia praticamente todas as cenas do filme. Seus protagonistas são bons exemplos de como o tema está imbuído no roteiro. Enoch (Henry Hopper) tem o costume de visitar velórios e funerais de estranhos. Em uma dessas ocasiões ele conhece Annabel (Mia Wasikowska, de Minhas Mães e Meu Pai), uma paciente terminal com câncer.

O nome do jovem não é por acaso. Na Bíblia, Enoch (ou Enoque) é o homem que “caminhou com Deus”. Seus semelhantes viveram por séculos, enquanto Enoch teve apenas 365 anos de vida.


No filme, Enoch vê Hiroshi (Ryo Kase, de Cartas de Iwo Jima), o fantasma de um piloto kamikaze. Já Annabel é fã de Darwin e entre seus animais favoritos estão criaturas ligadas à morte, como insetos que usam cadáveres para criar suas larvas ou pássaros que pensam morrer sempre que o sol se põe.

Por outro lado, um exemplo negativo no mesmo tema é A Festa da Menina Morta, que força a barra para trazer novos elementos fúnebres.

Em Inquietos, pequenos detalhes bem inseridos no roteiro fazem com que o filme renove e reafirme seu tópico central. Com isso, tem-se uma obra coesa, além de oferecer a inescapável emotividade que acompanha a premissa do enredo.





Inquietos (Restless)
Direção: Gus Van Sant
Roteiro: Jason Lew
Elenco: Henry Hopper, Mia Wasikowska, Ryo Kase, Schuyler Fisk, Lusia Strus, Jane Adams
Duração: 91 minutos
País: EUA

Nota: 8

domingo, 30 de outubro de 2011

A Casa dos Sonhos X Ilha do Medo: Trailers reveladores

por Edu Fernandes


Spoilerômetro: • (?) - trailer de A Casa dos Sonhos


Os thrillers psicológicos A Casa dos Sonhos e Ilha do Medo têm trailers que praticamente contam filmes inteiros. A concordância de contaúdo entre trailer e filme mostra os distintos níveis de qualidade entre os dois títulos.

O trailer de A Casa dos Sonhos (Dream House) revela muitos segredos de sua trama. O conteúdo do material promocional foi um dos vários motivos de conflito entre o diretor Jim Sheridan (Entre Irmãos) e os executivos da Morgan Creek. A briga foi tão feia que atores e o diretor se recusaram a promover o filme.


A razão por trás dessa questionável opção dos produtores está no fato de que, afora o elenco encabeçado por Daniel Craig (Cowboys e Aliens), Rachel Weisz (Um Olhar do Paraíso) e Naomi Watts (Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos), o filme não tem muitos atrativos sem que se revele alguns segredos do enredo.

A história de uma família que se muda para uma nova casa, cenário de mortes violentas e misteriosas, não transpira originalidade. Até o cartaz com as duas filhas dos personagens principais remete a uma cena antológica de O Iluminado (1980).

Como o filme não pode contar com o efeito do boca-a-boca positivo (nos Estados Unidos, o longa sequer foi exibido para a crítica), é preciso convencer o espectador a ir ao cinema logo na primeira semana em cartaz. Nem que, para isso, abra-se mão do ponto de virada do roteiro.


No caso de Ilha do Medo (Shutter Island), as coisas são um pouco diferentes. Seu trailer praticamente conta um filme inteiro. Quando é assistido, percebe-se que o filme em si é bem diferente do que se vende no trailer.

Como o longa dirigido por Martin Scorcese (Os Infiltrados) é de boa qualidade, os produtores podem usar de tal manobra. Dessa forma, potencializa a surpresa do roteiro e aumenta-se o efeito do boca-a-boca.





segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Inverno da Alma



Sinopse: Ree é uma jovem que tem de enfrentar muitos desafios. Sua mãe tem problemas mentais e Ree cuida sozinha da casa e dos irmãos menores. O pai dela sai da prisão em condicional, mas deixou a casa como garantia. Como ele está foragido, Ree resolve ir atrás dele, apesar de todos alertarem para que ela não se intrometa nesse assunto.


Ficha Técnica
Inverno da Alma (Winter's Bone)
Direção: Debra Granik
Roteiro: Debra Granik, Anne Rosellini
Elenco: Jennifer Lawrence, Shelley Waggener, Garret Dillahunt, Lauren Sweetser, John Hawkes
Duração: 100 minutos
País: EUA


Realidades paralelas
 por Edu Fernandes

(Spoilerômetro: •)

Uma reclamação frequente com o cinema nacional é a repetição de temas, com muitas tramas em favelas ou no sertão, muitas sobre violência urbana e pobreza. Inverno da Alma (Winter's Bone) fala das classes mais baixas da sociedade, sob um esquema de coronelismo, as pessoas têm suas vidas desperdiçadas pela criminalidade e falta de oportunidades. A diferença é que se trata de uma produção estadunidense, com sua história passada no interior do país, no estado de Missouri.

As semelhanças dos problemas brasileiros com os enfrentados por essa parcela esquecida (de várias formas) do povo dos Estados Unidos são impressionantes. Só por esse aspecto, vale a pena conferir o filme.

Outro ponto alto são as atuações. Jennifer Lawrence (Vidas que se Cruzam) conseguiu catapultar seu nome para o alto escalão de Hollywood com esse trabalho. Com uma performance forte (quase bruta), ela surpreende. Espera-se que ela use as novas opções de trabalho para fazer outros filmes de qualidade.

Outro traço que aproxima Inverno da Alma do cinema brasileiro é o uso de não-atores – algo que os franceses conseguem fazer muito bem. Os amadores passam autenticidade para a dura história a ser contada e alguns oferecem atuações consistentes.


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Instinto de Vingança



Sinopse: O pai solteiro Terry recebe um transplante de coração. Seu novo órgão faz com que ele tenha problemas relacionados com as misteriosas circunstâncias da morte de seu doador.


Ficha Técnica
Instinto de Vingança (Tell-Tale)
Direção: Michael Cuesta
Roteiro: Dave Callaham
Elenco: Josh Lucas, Lena Headey, Brian Cox, Beatrice Miller
Duração: 93 minutos
País: Reino Unido, EUA


Manobras de lançamento
 por Edu Fernandes

(Spoilerômetro: •)

Depois de assistir a Instinto de Vingança (Tell-Tale) fiquei com uma dúvida na cabeça: por que esse título não foi lançado diretamente em DVD? Alguns filmes têm esse destino por não apresentarem um grau de qualidade suficiente para se promoverem na tela grande, ou não têm atores famosos em seu elenco para chamar a atenção do espectador. Pois bem, essa fita sofre dos dois problemas e mesmo assim chega ao circuito de cinema. Vai entender!

Para não dizer que o elenco é formado por totais desconhecidos, Lena Headey interpreta a médica que se envolve com o protagonista. Antes disso, a atriz inglesa tinha vivido a rainha em 300 – seu personagem aparecia em cerca de cinco cenas na adaptação da graphic novel. O nome mais expressivo entre os atores desse thriller é Brian Cox (Meu Monstro de Estimação), mas em um papel secundário.

Filmes excelntes sem grandes estrelas existem aos montes, mas não é o caso de Instinto de Vingança. O roteiro parte do princípio nada original de que um transplante de órgão cria um elo entre o doador e o transplantado – mesma premissa de O Olho do Mal e da telenovela De Corpo e Alma.

Depois, o enredo deixa pistas falsas ao acompanhar as investigações dos assassinatos cometidos por Terry. Tudo isso para que o público seja surpreendido no final, mas no filme não consegue escapar de clichês: muitos conseguirão decifrar o enigma antes do planejado. Além disso, tramas adicionais desnecessárias são inseridas para tentar somar dramaticidade.

Para não ficar para trás, o diretor Michael Cuesta (Dexter) carrega a mão em algumas cenas. Nos momentos em que fica evidente o elo entre Terry e o antigo dono do seu coração, a câmera trema, o som se esbalda nas batidas cardíacas e o exagero irrita.

Teoricamente Instinto de Vingança é inspirado no conto “O Coração Delator” de Edgar Allan Poe, mas acho que só falaram isso para ofender o autor e seus fãs.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O Inferno de Henri-Georges Clouzot


Sinopse: Em 1964, o cineasta Henri-Georges Clouzot estava trabalhando no filme Inferno, que nunca chegou a ser concluído. O documentário conta a história e os experimentalismos dessa produção.


Ficha Técnica
O Inferno de Henri-Georges Clouzot (L'enfer d'Henri-Georges Clouzot)
Direção: Serge Bromberg, Ruxandra Medrea
Roteiro: Serge Bromberg
Elenco: Romy Schneider, Bérénice Bejo, Serge Reggiani, Jacques Gambli
Duração: 102 minutos
País: França


Como não fazer cinema
 por Edu Fernandes

(Spoilerômetro: •)

Desde 1964 que o filme O Inferno causa fascinação entre os cinéfilos por causa da aura de mistério e maldição ao redor dessa fita. Em 1994, os ânimos puderam ser um pouco apaziguados quando Claude Chabrol (Uma Garota Dividida em Dois) filmou o roteiro que tinha comprado da viúva de Henry Clouzot. No entanto, a visão única do criador só pôde ser contemplada em 2005, quando da Sra. Clouzot divulgou os nagativos das filmagens originais.

De posse desse valioso material e outros estudos em papel feitos por Clouzot, o documentário O Inferno de Henri-Georges Clouzot (L'enfer d'Henri-Georges Clouzot) cumpre duas nobres missões. Primeiramente, cenas do filme são remontadas usando cenas captadas em 1964 e juntadas com gravações de dois atores contemporâneos lendo o roteiro original. Assim tem-se uma noção do que se perdeu.

O segundo feito do documentário está em mostrar como aconteceu a concepção e quase-execução desse audacioso projeto. É possível apenas imaginar quão ousado seria O Inferno com as experimentações artísticas, os testes de cor e todas as outras provas da fertilidade mental que Clouzot investiu nessa obra.

Alguns fatores colaboraram para que o filme nunca fosse finalizado, mas é perceptível pelos relatos atuais de pessoas envolvidas com as filmagens que os principais obstáculos eram justamente as intermináveis novas ideias do diretor e sua personalidade complicada.

Nesse ponto é que O Inferno de Henri-Georges Clouzot torna-se uma grande aula de cinema. O cineasta é um sujeito que está a todo momento na corda bamba entre a inspiração artística e os compromissos profissionais e Clouzot não foi eficaz em perceber como responder aos dois lados de sua profissão. Espera-se que alguns aspirantes a diretor de cinema assistam a esse filme e reavaliem suas posturas.