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sexta-feira, 3 de maio de 2013

Estreias da semana

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)

Doméstica

Gabriel Mascaro convoca jovens de todo o Brasil para gravarem a rotina de suas empregadas. Ele une os episódios e forma um documentário.

MAIS:
Crítica: Documentário socrático

Em Transe

Simon recorre a uma psicóloga para se lembrar onde escondeu uma pintura roubada. A hipnose mostra os traumas de sua mente.

MAIS:
Texto comparativo: Os segredos da mente


Paulo Moura

O compositor, maestro e multi-instrumentista morreu pouco antes do começo da produção do documentário. Mesmo assim, os realizadores tiveram acesso a imagens raras e documentos pessoais.

Há uma bela homenagem ao virtuosismo do músico, mas falta um pouco de apuro técnico. As fotos poderiam ser escaneadas e passar por algum grafismo, por exemplo. É mais um claro caso de confiança exagerada no tema que dá espaço para preguiça formal.

MAIS:
Texto: É Tudo Verdade volta a abrir com documentário musical (SaraivaConteúdo)

Paulo Moura – Alma Brasileira
Roteiro e Direção: Eduardo Escorel
Elenco: Paulo Moura
Duração: 86 minutos
País: Brasil

Nota: 7

Paulo Moura – Alma Brasileira foi visto no É Tudo Verdade 2013


O Sonho de Wadjda

Wadjda (Waad Mohammed) deseja ter uma bicicleta para apostar corrida com seu amigo (Abdullrahman Al Gohani), mas o brinquedo é reservado apenas para os meninos na Arábia Saudita. Enquanto isso, sua mãe (Reem Abdullah) está preocupada em manter o marido (Sultan Al Assaf) em casa, já que a família dele o pressiona a encontrar uma nova esposa que lhe dê um filho-homem.

O filme mostra as restrições sofridas pelas mulheres no mundo árabe. O ponto forte é retratar o campeonato de hipocrisias que se instala para manter as aparências e fingir seguir todas essas normas injustas.

O Sonho de Wadjda (Wadjda)
Roteiro e Direção: Haifaa Al-Mansour
Elenco: Reem Abdullah, Waad Mohammed, Abdullrahman Al Gohani, Ahd, Sultan Al Assaf
Duração: 98 minutos
País: Arábia Saudita, Alemanha

Nota: 8


Somos Tão Jovens

Renato (Thiago Mendonça, de 2 Filhos de Francisco) sonha em ter uma banda de rock na Brasília do final dos anos 1970. Ele vive amores, decepções e protestos até conseguir fundar a Legião Urbana.

O filme consegue passar bem a atmosfera de turma tão recorrente no cinema brasileiro do começo dos anos 1980. As interpretações são intensas e combinam com o rock executado ao vivo nas apresentações registradas pelas câmeras.

MAIS:
Vídeo: A “tchurma” que virou Legião (SaraivaConteúdo)

Somos Tão Jovens
Direção: Antonio Carlos da Fontoura
Roteiro: Marcos Bernstein
Elenco: Thiago Mendonça, Laila Zaid, Bruno Torres, Daniel Passi, Sandra Corveloni, Marcos Breda, Bianca Comparato
Duração: 104 minutos
País: Brasil

Nota: 7

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Vocês Ainda não Viram Nada: A magia do palco

por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)


A relação entre o teatro e o cinema data dos primórdios da sétima arte. Há uma dinâmica entre esses dois meios que ganha novo fôlego com filmes como Vocês Ainda não Viram Nada (Vous n'avez encore rien vu).

Logo no começo, uma série de atores são convocados pelo telefone por causa da morte de um dramaturgo (Denis Podalydès, de Adeus Berthe). Todos os atores são chamados por seu nome real, o que já coloca o filme sobre a margem entre realidade e ficção.

Quando chegam à casa do falecido, eles são presenteados com um vídeo que mostra uma montagem recente de uma peça de autoria de Antoine. Todos os atores ali presentes já subiram ao palco para desempenhar aqueles papéis, então é impossível não relembrar os diálogos.


Aos poucos, eles começam a reencenar a peça, acompanhando o vídeo. Gradativamente o filme se permite entrar no jogo cênico e cenários são incluídos em chroma-key*.

É com essa proposta que o diretor Alain Resnais (Ervas Daninhas) traz uma nova aproximação entre teatro e cinema. Vislumbra-se a fantasia vivenciada pelos atores, mas mantêm-se os recursos cinematográficos. De uma maneira geral, trata-se de uma aula em celuloide.

* Chroma-key: quando um fundo de cor única é substituído digitalmente por outra imagem, recurso muito usado no seriado Chapolin.


Vocês Ainda não Viram Nada (Vous n'avez encore rien vu)
Direção: Alain Resnais
Roteiro: Alex Reval, Laurent Herbiet
Elenco: Mathieu Amalric, Pierre Arditi, Sabine Azéma, Jean-Noël Brouté, Anne Consigny, Anny Duperey, Hippolyte Girardot, Gérard Lartigau, Michel Piccoli, Denis Podalydès, Michel Robin, Andrzej Seweryn, Jean-Chrétien Sibertin-Blanc, Michel Vuillermoz, Lambert Wilson
Duração: 115 minutos
País: França, Alemanha

Nota: 7

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Atrás da Porta: Controle emotivo

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)


A emoção é parte inerente da experiência cinematográfica. Por outro lado, o excesso de emotividade pode ser usado para esconder filmes fracos. É exatamente no controle da carga emotiva que reside a maior virtude de Atrás da Porta (The Door).

A trama acompanha a escritora Magda (Martina Gedeck, de O Grupo Baader Meinhof), que contrata a idosa Emerenc (Helen Mirren, de Red - Aposentados e Perigosos) para ser sua empregada doméstica nos anos 1960. Emerenc é a figura mais complexa de todo o longa. Ela tem um passado nebuloso e não permite que as pessoas entrem em sua residência. Suas visitas ficam no quintal e na varanda.

Ela tem uma relação estranha com a nova patroa. Em algumas oportunidades, demonstra afeição. Em seguida, tem atitudes inesperadas, como se quisesse tomar o controle da casa. Para viver esse complicado papel, apenas uma atriz com o talento de Mirren para dar conta do recado.


O controle da emotividade se dá na direção de István Szabó (Adorável Júlia), que não usa enquadramentos muito próximos. Na edição de Réka Lemhényi (Essential Killing), cortes bruscos entre as cenas não permitem que o espectador mergulhe demais no drama.

O único elemento que peca é a trilha musical que, para evitar a emoção, repete o mesmo tema à exaustão. Por vezes, a trilha entra em momentos totalmente inoportunos.

A intensão de Atrás da Porta é ver toda sua situação com sobriedade. Deixando de lado a opção infeliz na área musical, é exatamente isso que temos: um interessante e frio estudo de personagem.


Atrás da Porta (The Door)
Direção: István Szabó
Roteiro: István Szabó, Andrea Vészits
Elenco: Helen Mirren, Martina Gedeck, Károly Eperjes, Gábor Koncz, Enikö Börcsök, Ági Szirtes
Duração: 97 minutos
País: Hungria, Alemanha

Nota: 8

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Caverna dos Sonhos: 3D com porquê

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)


Quando se fala na história da pintura, logo se imagina tela com pinceladas. O que poucas vezes lembramos é que tudo começou na pré-História, com gravuras nas paredes das cavernas. Os registros mais antigos desse tipo de expressão foram descobertos em 1994 no interior da França. As imagens da caverna foram feitas a mais de 30 mil anos. Esse é o cenário e o tema do documentário A Caverna dos Sonhos Perdidos (Cave of Forgotten Dreams).

As pinturas mais famosas do mundo são planas como uma tela de cinema, mas as pinturas rupestres são feitas sobre pedras irregulares. Por esse motivo o diretor Werner Herzog (Vício Frenético) decidiu realizar seu filme em 3D. Portanto, é aconselhável vê-lo nesse formato.


O ponto mais frágil do longa é sua narração, que passa do limite e parece um documentário antiquado de vida selvagem – a produção é do History Channel, o que pode explicar tal característica. Por outro lado, os enquadramentos e os movimentos de câmera oferecem uma imersão no mundo daquelas gravuras impressionantes.

Quando o assunto são obras tão antigas, arte e ciência andam lado a lado e A Caverna dos Sonhos Perdidos faz bem em retratar esses dois aspectos em suas cenas e depoimentos. As descobertas científicas obtidas pelos achados no local são tão importantes quanto a expressividade daquelas imagens. Assim, há muita instrução na viagem que o espectador fará ao ver esse filme.

A Caverna dos Sonhos Perdidos (Cave of Forgotten Dreams)
Roteiro e Direção: Werner Herzog
Elenco: -documentário-
Duração: 90 minutos
País: Canadá, EUA, França, Alemanha, Reino Unido

Nota: 8

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Amor: A angústia de Haneke

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)


Os mais famosos trabalhos do diretor alemão Michael Haneke são A Fita Branca (2009) e as duas versões de Violência Gratuita (1997 e 2007). Em Amor (Amour) ele narra os últimos dias de Anne (Emmanuelle Riva, de A Sombra da Dúvida), uma francesa octogenária que é cuidada pelo marino Georges (Jean-Louis Trintignant, de Janis e John).

Tal drama parece não se encaixar na obra do cineasta, mas Haneke consegue imprimir personalidade na tela. A angústia que marca seus filmes está presente em Amor. A começar porque já sabemos na primeira cena que Anne morre no final. O que motiva é descobrir o que aconteceu com o esposo.

O uso de planos longos e contínuos colabora para que a angústia se instale Além disso, essa opção combina com a idade avançada dos personagens, em que tudo é mais vagaroso.


A maldição de Amélie

Amor foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro e ainda concorre em mais quatro categorias. Em um primeiro olhar, ele parece o favorito, mas o histórico da premiação indica o oposto. Como aconteceu recentemente com O Fabuloso Destino de Amélie Poulin (2001) e O Labirinto do Fauno (2006), quando um filme estrangeiro é indicado em outras categorias, perde na competição internacional.

Isso indica que, para Hollywood o resto do mundo produz uma “série B cinematográfica”. Segundo esse raciocínio infeliz, se uma filme mostra-se capaz de se sobressair e competir com produções em inglês, tornar-se inelegível entre os estrangeiros.


Amor (Amour)
Roteiro e Direção: Michael Haneke
Elenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert
Duração: 127 minutos
País: Fança, Alemanha, Áustria

Nota: 8

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Causos de Cinema: A Viagem: E no começo, havia o verbo

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)
para Matrix


A seção Causos de Cinema relata acontecimentos que vão além do filme na experiência de ir ao cinema.


A imprensa assiste aos filmes antes da estreia em sessões especiais, as chamadas cabines. Por não serem como as sessões de circuito, os erros na projeção são mais comuns.

Dito isso, vamos à cabine de imprensa de A Viagem (Cloud Atlas). Quando o filme foi iniciado, as luzes da sala se apagaram, mas os presentes só conseguiam ouvir a trilha e as primeiras falas. Não havia qualquer imagem na tela. Depois de pouco tempo, os problemas foram corrigidos e a sessão foi reiniciada.

Depois de visto o filme, penso que o ocorrido foi um presságio do que estava por vir. O roteiro acompanha seis histórias em paralelo, cada uma em um tempo histórico diferente. A mensagem é de que tudo está conectado e de que a humanidade se repete em seus erros e suas motivações.


O presságio se dá por causa da falação que é o filme, apesar de não ter desgostado dele como um todo. Na maioria das tramas paralelas há um narrador, muitas vezes redundante com a imagem. Essa falha parece ser um vício de alguns cineastas e pode ser encontrada até no passado dos próprios irmãos Wachowski.

Um exemplo da verborragia está na cena do Arquiteto na trilogia Matrix. Quando a assisti, percebi que precisaria rever tal cena para entender plenamente tudo o que foi dito ali. Em A Viagem há vários momentos assim, apesar de não ser complicado entender o geral do enredo.

Quando o texto é muito denso e complexo em um livro, basta reler as páginas. Quando se está em uma sala de cinema, tal artimanha é impraticável. Por isso que filmes contam com tempos mortos e respiros. Sem contar que não confiar no visual para contar a história é um contrassenso com a sétima arte.


A Viagem (Cloud Atlas)
Roteiro e Direção: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski
Elenco: Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Doona Bae, Ben Whishaw, Keith David, James D'Arcy, Xun Zhou, David Gyasi, Susan Sarandon, Hugh Grant
Duração: 172 minutos
País: Alemanha, EUA, Hong Kong, Singapura

Nota: 6

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Resident Evil 5: Particularidades

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)


A adaptação de videogames para o cinema sempre foi um desafio para roteiristas. Como transformar histórias que só servem de suporte para jogabilidade em uma narrativa decente? Se Resident Evil 5 – Retribuição (Resident Evil: Retribution) não tem o roteiro mais original do mundo, merece elogios por conseguir encaixar elementos dos games na história do longa.

Dessa vez, Alice (Milla Jovovich, de Os Três Mosqueteiros) acorda dentro de um grande complexo da Umbrella Corporation. Ela terá a ajuda de aliados do passado para escapar do local – aparentemente tudo o que ela viveu nos filmes anteriores não passa de sonho.

Até chegar a saída, ela terá de passar por cidades cenográficas onde acontecem testes com o T-Vírus. Cada um desses locais (Nova York e Moscou, por exemplo) funciona como uma fase do jogo.


Como nos filmes anteriores, há clones por toda parte. Assim, a franquia consegue “ressuscitar” alguns personagens e presentear os fãs da série. Essa receita de grande reunião já provou ter bons resultados em Velozes e Furiosos 5.

Já no paralelo com o mundo dos games, a presença de clones funciona como aquelas fases em jogos de tiro (especialmente os FPS) em que há infinitos inimigos. Ordas e mais ordas de zumbis e outros combatentes podem ser colocados em cena com uma justificativa minimamente plausível. Aliás, é aconselhável ater-se apenas ao minimamente plausível no enredo.

Como na aventura anterior, os efeitos 3D estão afinados e bem posicionados. As cenas de ação são eletrizantes e parece estar diante de um videogame. Só se espera que a repetição não seja sinal de cansaço da franquia.


Resident Evil 5 – Retribuição (Resident Evil: Retribution)
Roteiro e Direção: Paul W.S. Anderson
Elenco: Milla Jovovich, Sienna Guillory, Michelle Rodriguez, Aryana Engineer, Bingbing Li, Boris Kodjoe . Johann Urb, Oded Fehr
Duração: 95 minutos
País: Alemanha, Canadá

Nota: 6

sábado, 25 de agosto de 2012

Festival de Curtas: Mostra Internacional

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)

Para acompanhar a cobertura completa do Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo, clique aqui.


O Pavio

Com uso de vídeos caseiros do começo dos anos 1990, o documentário mostra o começo da guerra separatista da antiga Ioguslávia. O ponto de vista é de um menino, então o tom inocente domina o filme.

O objetivo é discutir as consequências no indivíduo de um cenário mais amplo. Portanto, enquanto tentam comemorar o aniversário do irmão do protagonista, a família se preocupa com bombardeios. Essa mistura de privado e coletivo temperam o curta.

O Pavio: Ou Como Queimei Simón Bolivar (Kako sam Zapalio Simona Bolivara)
Roteiro e Direção: Igor Drljaca
Elenco: Igor Drljaca, Milanko Drljaca, Rosa Drljaca
Duração: 9 minutos
País: Canadá, Bósnia e Herzegovina

Nota: 8


Para o Mundo que Eu Quero Descer

Marcy foi abandonada pelo marido e enfrenta dificuldades para manter o orçamento do lar. O problema é que ela não parece tomar atitudes efetivas para resolver a situação. Ela passa os dias na frente da televisão à espera de que um dia possa ganhar dinheiro em um game show.

Com a simpatia pela protagonista comprometida, fica difícil curtir o filme. As atuações são boas, mas o roteiro não convence, especialmente o espectador brasileiro. Nosso povo já está calejado em crises e teria um comportamento bem diferente do adotado por Marcy.

Para o Mundo que Eu Quero Descer (Shoot the Moon)
Roteiro e Direção: Alexander Gaeta
Elenco: Pamela Bowen, Rachel Grate, Zachary Haven
Duração: 26 minutos
País: EUA

Nota: 4


Suco de Pêssego

A animação em stop motion narra as primeiras descobertas sexuais de um adolescente que vai à praia com familiares. O humor do filme está no casamento torto da estética com o roteiro. Os bonecos não têm qualquer sensualidade e as insinuações são bem posicionadas.

Mesmo com um assunto difícil e visual exótico, ainda há espaço para os rapazes relembrarem os primeiros choques hormonais da puberdade.

Suco de Pêssego (Peach Juice)
Direção: Nathan Gilliss, Brian Lye, Callum Paterson
Roteiro: Brian Lye
Elenco: Kerrie Gee, Matt Spears
Duração: 8 minutos
País: Canadá

Nota: 8

Café Regular, Cairo

Um casal se encontra em um café para discutir sua vida sexual. A premissa já promete momentos de desconforto que são um campo fértil para o humor. A situação cômica aumenta porque o casal é muçulmano.

Apesar dos dois anos de relacionamento, eles ainda não consumaram carnalmente seu amor, tudo por causa das tradições da sociedade em que estão inseridos. É nesse ponto que a comédia é usada para rir dos tabus e possibilitar a discussão de temas delicados.

Roteiro e Direção: Ritesh Batra
Elenco: Mai Abozeed, Alaa Ezzat
Duração: 11 minutos
País: Egito

Nota: 7


Como o Medo Surgiu

Mitos africanos são narrados com o uso de marionetes. Entre os capítulos que formam o curta, o cenário e os manipuladores são mostrados, como que para denunciar que se trata de ficção – como Godard faz em alguns de seus filmes.

O problema é que essa fórmula se repete à exaustão. No final, a narrativa não oferece mais novidades e o curta esvazia-se em sua própria proposta.

Como o Medo Surgiu (Comment vint la crainte)
Roteiro e Direção: Anaïs Caura, Bulle Tronel
Elenco: Christopher Silva
Duração: 10 minutos
País: França

Nota: 5


A Regra de Três

O galã blasé Louis Garrel (As Bem Amadas) faz filmes blasés. Agora ele se arrisca no roteiro e na direção de um curta blasé. Toda a ação se passa em um dia, com três amigos que dividem suas angústias.

Os diálogos trazem todo o existencialismo de quem nunca teve uma pia de louça suja para lavar. Para os fãs blasés de Garrel, um prato cheiro. Para os outros mortais que pegam ônibus lotado, uma tortura verborrágica.

A Regra de Três (La règle de trois)
Roteiro e Direção: Louis Garrel
Elenco: Golshifteh Farahani, Louis Garrel, Vincent Macaigne
Duração: 18 minutos
País: França

Nota: 3


Projeto Centrífuga de Cérebro

O falso documentário mantém a farsa com bom domínio da linguagem. O uso de efeitos visuais denuncia, além dos engraçados exageros na proposta.

O tema é um pretenso instituto de pesquisa que investiga as consequências positivas de participar de situações em que o cérebro é submetido a movimentos bruscos. Para manter os estudos, a instituição se associa a uma empresa de parques de diversão e começa a propor brinquedos absurdos. É aí que o documentário arranca boas risadas do público.

Projeto Centrífuga de Cérebro (The Centrifuge Brain Project)
Roteiro e Direção: Till Nowak
Elenco: Leslie Barany
Duração: 7 minutos
País: Alemanha

Nota: 8

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Elles: Fetiches mascarados

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)


Dizem que entre quatro paredes o ser humano mostra sua verdadeira natureza. Esse é o assunto central de Elles.

O filme desenvolve sua narrativa a partir de três momentos chave. Anne (Juliette Binoche, de Cópia Fiel) escreve um artigo para a revista Elle sobre prostituição enquanto prepara um jantar para o chefe do marido. Entre computador, telefone e panelas; a jornalista relembra as duas entrevistas que fez para compor seu texto.

O que une as entrevistadas Lola (Anaïs Demoustier, de As Neves do Kilimandjaro) e Alicja (Joanna Kulig, de O Rei dos Ladrões) é a prostituição como uma fonte de renda superior a que teriam se trabalhassem em postos mais tradicionais. Lola tem de esconder sua verdadeira ocupação do namorado e a imigrante Alicja faz o mesmo com sua família na Polônia.


Essa questão do que é necessário esconder de pessoas próximas permeia todo o filme e afeta a própria protagonista com seus problemas familiares. Em seus depoimentos, as prostitutas dizem que seus clientes são homens casados, que usam seus serviços para dar vazão a taras e fetiches que não conseguem externar no matrimônio. Ou seja, eles pagam a uma estranha para conseguir exercer seus desejos mais íntimos, ao invés de partilhá-los com a mulher que escolheram para dividir a vida.

As máscaras sociais e segredos vão além da sexualidade e Elles não deixa escapar a complexidade de seu tema. Com muitas pontas propositalmente soltas, o filme pede por uma longa conversa depois de terminada a sessão.


Elles
Direção: Malgorzata Szumowska
Roteiro: Malgorzata Szumowska, Tine Byrckel
Elenco: Juliette Binoche, Anaïs Demoustier, Joanna Kulig, Louis-Do de Lencquesaing, François Civil
Duração: 99 minutos
País: França, Polônia, Alemanha

Nota: 7

terça-feira, 17 de julho de 2012

As Más Intenções: Psicologia infantil

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)


Em muitos aspectos, As Más Intenções (Las malas intenciones) se parece com O Labirinto do Fauno (2006). Em ambos há como protagonista uma menina imaginativa cuja mãe está grávida do padastro. O ambiente social hostil faz as garotas usarem a imaginação como válvula de escape.

As Más Intenções se passa no Peru de 1982, em meio a uma revolta socialista e clima de terrorismo. Cayetana (Fatima Buntinx) não reage muito bem à notícia de que sua mãe (Katerina D'Onofrio) está grávida e se convence de que morrerá quando seu irmão nascer. Movida pelo ciúmes, ela toma atitudes reprováveis, mas consegue garantir a simpatia do público por causa do talento da jovem atriz que a interpreta.


É correto afirmar que Cayetana é uma personagem mais complexa do que Ofelia, apesar de O Labirinto do Fauno ser um filme superior. A mistura de maturidade e inocência de Cayetana gera as melhores cenas e diálogos de As Más Intenções.

Enquanto Ofelia coleciona livros de contos de fada, Cayetana é mais interessada pela história da Améria do Sul. Por essa razão, seus delírios são com personagens históricos no lugar de criaturas mágicas. Por ser mais racional, suas fantasias são mais psicológica e questionadoras.

O filme abraça esse viés psicológico de sua protagonista com inteligência. Assim, muitas vezes a passagem entre cenas é abrupta e tem-se a impressão de que o foco narrativo se perdeu. No entanto, tal qual a fluidez do raciocínio humano, logo são construídas pontes entre elementos aparentemente desconexos e o filme avança em um ritmo único.


As Más Intenções (Las malas intenciones)
Roteiro e Direção: Rosario Garcia-Montero
Elenco: Fatima Buntinx, Katerina D'Onofrio, Melchor Gorrochátegui, Kani Hart, Jean-Paul Strauss, Paul Vega
Duração: 110 minutos
País: Peru, Argentina, Alemanha

Nota: 7

As Más Intenções foi visto no Festival Latino 2012.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O Garoto que Mente: Ética e ambiente

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)


Há alguns tipos de comportamento que todos aprendem como errados desde a infância. A mentira é uma dessas atitudes que as crianças são desaconselhadas a tomar. O Garoto que Mente (El chico que miente) consegue mostrar que algumas situações extremas obrigam os jovens a fazer a coisa errada.

Um menino (Iker Fernández) viaja sozinho pelo interior da Venezuela. A todo momento, ele reinventa sua história de vida. Suas mentiras não são graves e é a forma como o protagonista encontrou para sobreviver. Há 10 anos um deslizamento de terra acabou com sua família, mas ele adapta algumas circunstâncias do conto de maneira a comover seu interlocutor.

A cronologia do filme é fragmentada, contando um pouco do passado e um pouco do presente do menino. Dessa forma descobre-se aos poucos o quanto de verdade há em seu discurso. O público é também enganado pelas mentiras.


O objetivo de O Garoto que Mente é mostrar a realidade da periferia venezuelana. Com uma latente crítica social, o filme traça paralelos e entre a situação sócio-econômica e a cultura do país. Por essa razão, a fé é tema de muitas de suas cenas.

Os encontros travados pelo protagonista em seu caminho servem para apresentar novos elementos que compõem um quadro mais complexo da periferia da Venezuela. Trata-se de um belo exemplo de narrativa que justifica sua existência além do drama.

A maioria das contravenções que se pode ver em O Garoto que Mente acontecem por causa da negligência das autoridades. Quem está mais errado: o poco que toma atitudes erradas por desespero ou um governo ausente?


O Garoto que Mente (El chico que miente)
Direção: Marité Ugas
Roteiro: Mariana Rondón, Marité Ugas
Elenco: Iker Fernández, Francisco Denis, María Fernanda Ferro
Duração: 100 minutos
País: Venezuela, Peru, Alemanha

Nota: 7

O Garoto que Mente foi visto no Festival Latino 2012.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Deus da Carnificina: Teatro filmado

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)


Quando se adapta uma peça de teatro para as telas do cinema, normalmente se explora os detalhes do cenário. O objetivo é transpor as limitações do palco. Em Deus da Carnificina (Carnage), o diretor Roman Polanski (O Escritor Fantasma) vai no caminho contrário e concentra a ação em apenas uma locação.

Praticamente tudo se passa dentro do apartamento de Penelope (Jodie Foster, de Um Novo Despertar) e Michael (John C. Reilly, de Precisamos Falar sobre o Kevin). Lá, os dois travam acaloradas discussões com outro casal, formado por Nancy (Kate Winslet, de Contágio) e Alan (Christoph Waltz, de Os Três Mosqueteiros). Tudo isso porque o filho dos visitantes agrediu o filho dos anfitriões.


A força da obra está nos diálogos. Essa é a razão que fez Polanski deixar que as atuações se encarreguem de conduzir o desenrolar do enredo. Para manter a carga dramática, o diretor optou por gravar as cenas na ordem em que estão no roteiro – algo incomum no cinema.

Dessa forma, a curva dramática de cada personagem flui mais naturalmente. Conforme as alianças entre eles se formam e os conflitos se complicam, a entrega dos atores aumenta. A conexão com o público segue o mesmo caminho.

O resultado é uma comédia ácida e crítica. A assinatura de Polanski é visível em Deus da Carnificina, ao mesmo tempo em que os atores têm todo o espaço para brilhar.


Deus da Carnificina (Carnage)
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Yasmina Reza, Roman Polanski
Elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, John C. Reilly
Duração: 80 minutos
País: França, Alemanha, Polônia, Espanha

Nota: 8