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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Causos de Cinema: A Viagem: E no começo, havia o verbo

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)
para Matrix


A seção Causos de Cinema relata acontecimentos que vão além do filme na experiência de ir ao cinema.


A imprensa assiste aos filmes antes da estreia em sessões especiais, as chamadas cabines. Por não serem como as sessões de circuito, os erros na projeção são mais comuns.

Dito isso, vamos à cabine de imprensa de A Viagem (Cloud Atlas). Quando o filme foi iniciado, as luzes da sala se apagaram, mas os presentes só conseguiam ouvir a trilha e as primeiras falas. Não havia qualquer imagem na tela. Depois de pouco tempo, os problemas foram corrigidos e a sessão foi reiniciada.

Depois de visto o filme, penso que o ocorrido foi um presságio do que estava por vir. O roteiro acompanha seis histórias em paralelo, cada uma em um tempo histórico diferente. A mensagem é de que tudo está conectado e de que a humanidade se repete em seus erros e suas motivações.


O presságio se dá por causa da falação que é o filme, apesar de não ter desgostado dele como um todo. Na maioria das tramas paralelas há um narrador, muitas vezes redundante com a imagem. Essa falha parece ser um vício de alguns cineastas e pode ser encontrada até no passado dos próprios irmãos Wachowski.

Um exemplo da verborragia está na cena do Arquiteto na trilogia Matrix. Quando a assisti, percebi que precisaria rever tal cena para entender plenamente tudo o que foi dito ali. Em A Viagem há vários momentos assim, apesar de não ser complicado entender o geral do enredo.

Quando o texto é muito denso e complexo em um livro, basta reler as páginas. Quando se está em uma sala de cinema, tal artimanha é impraticável. Por isso que filmes contam com tempos mortos e respiros. Sem contar que não confiar no visual para contar a história é um contrassenso com a sétima arte.


A Viagem (Cloud Atlas)
Roteiro e Direção: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski
Elenco: Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Doona Bae, Ben Whishaw, Keith David, James D'Arcy, Xun Zhou, David Gyasi, Susan Sarandon, Hugh Grant
Duração: 172 minutos
País: Alemanha, EUA, Hong Kong, Singapura

Nota: 6

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Causos de Cinema: O Caminho: Muitas Vias

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)

A seção Causos de Cinema relata acontecimentos que vão além do filme na experiência de ir ao cinema.


Depois de terminada a sessão de O Caminho (El Camino) no Nossas Américas Nossos Cinemas (acompanhe a cobertura completa do evento aqui), uma estudante de cinema comentou que tinha chegado atrasada à projeção e só tinha conseguido ver as duas últimas cenas. Pelo pouco que tinha assistido, suspeitava se tratar de um filme muito bom.

Eu, que assisti a produção do começo ao fim, concordei com as qualidades do desfecho. Há nele imagens impactantes, metáforas ricas em uma sequência bem pensada.


Por outro lado, precisei discordar da qualidade do filme como um todo. A história apresentada é sobre uma menina (Sherlin Paola Velásquez) que foge de casa com seu irmão mais novo (Marcos Ulises Jiménez). O objetivo da viagem é atravessar a fronteira internacional e ir buscar a mãe. Na verdade, a trama é apenas um pretexto para que a protagonista encontre personagens e situações.

A variedade desses encontros é tão grande quanto as propostas narrativas e estéticas aglutinadas em O Caminho. O filme parece indeciso em seguir uma linha constante. O ritmo lento e essa bagunça de linguagens tem um alto potencial sonífero e frustrante. A coerência e a síntese passam longe dessa produção.

A experiência vivida no encontro de realizadores em Sobral mostrou o quanto a parte pode mentir sobre o todo. Não são apenas um punhado de cenas bonitas desconexas que compõem um grande filme.


O Caminho (El Camino)
Roteiro e Direção: Ishtar Yasin Gutierrez
Elenco: Sherlin Paola Velásquez, Juan Borda, Morena Guadalupe Espinoza, Marcos Ulises Jiménez, Cornelio Flores Meza
Duração: 90 minutos
País: Costa Rica

Nota: 3

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Causos de Cinema: Precisamos Falar sobre o Kevin: Pausa necessária

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)

A seção Causos de Cinema relata acontecimentos que vão além do filme na experiência de ir ao cinema.


Quando se acompanha uma mostra de filmes como o Festival do Rio, assiste-se a dezenas de produções e é fácil confundir um título com o outro. No entanto, a força de Precisamos Falar sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin) fez com que a sessão na qual o assisti ficasse marcada em minha memória.

Kevin (Ezra Miller) é um adolescente que leva adiante um massacre estudantil nos moldes de Columbine, mas o ponto de vista principal do filme é o da mãe dele (Tilda Swinton, de Um Sonho de Amor). A relação de Eva com seu filho é conturbada desde que ele era um bebê. Como a história é contada fora da ordem cronológica, sempre se nota a sensação de impotência materna.


Fui assistir a esse filme em uma tarde de outubro em Ipanema. Normalmente concentro minha programação vespertina em Botafogo, onde há mais salas de cinema do festival e se pode emendar uma sessão à outra. Por razões de logística, só consegui encaixar o longa em uma sessão mais afastada.

Depois de terminado o filme, olhei a minha volta e vi várias pessoas aos prantos. Saí do cinema para pegar um ônibus de volta a Botafogo. Quando sentei na pare de trás do coletivo tive a real noção da importância de ter visto aquela fina naquela situação.

Eu estava digerindo toda a pujança narrativa de Precisamos Falar sobre o Kevin e percebi que, se tivesse programado para assisti-lo nos cinemas que costumo frequentar durante o Festival, exprimido entre duas sessões de outros filmes, seria incapaz de adentrar imediatamente para ver outra produção. Tinha muitas emoções, pensamentos e sensações para processar naquele começo de noite. Aquela breve viagem de ônibus foi essencial para contemplar a real dimensão do filme.


Precisamos Falar sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin)
Direção: Lynne Ramsay
Roteiro: Lynne Ramsay, Rory Kinnear
Elenco: Tilda Swinton, John C. Reilly, Ezra Miller, Jasper Newell, Rock Duer, Ashley Gerasimovich
Duração: 112 minutos
País: Reino Unido, EUA

Nota: 8