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quinta-feira, 4 de abril de 2013

Escreva Lola Escreva: Limitações positivas

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)



Todo crítico de cinema que se preze admitirá que o gosto pessoal acaba vazando para nossos textos. O livro Escreva Lola Escreva – Crônicas de Cinema é um exemplo claro do bom uso de tal característica.

Na coletânea, a autora Lola Aronovich torna o relato altamente pessoal. Ela conta o quanto chorou em determinadas sessões e as diferenças de opinião dela com o “maridão”, por exemplo.

Com essa opção, compreendemos sua ressalva em relação a Wall-e, causada por seu asco a baratas acima do poder de abstração. Assim, mesmo que o leitor (munido de bom senso) discorde as opiniões da escritora, não se cria um conflito. Tal harmonia só é possível porque Lola nunca pretende estar hierarquicamente acima de quem lê.

É uma pena que tal lição para a profissão tenha de partir de alguém que grita aos quatro ventos não se considerar uma crítica de cinema. A admissão da limitação pessoal é um exercício de humildade que poucos críticos praticam e isso causa rusgas.

É por essa razão que discordo dos colegas que julgam ter autoridade para falar mal de Os Vingadores (ou outra adaptação de HQ) sem nunca na vida terem aberto um gibi. A César o que é de César, e ao nerd o que é do nerd.

Escreva Lola Escreva – Crônicas de Cinema
Autora: Lola Aronovich
Editora: ComArte
Páginas: 176
Formato: 16 x 16 cm

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Meta-crítica: Os Descendentes: Cegueira premiada

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)

A seção Meta-crítica pensa as boas e más práticas da crítica de cinema.



Depois de conquista o Globo de Ouro como melhor drama, Os Descendentes (The Descendants) corre o risco de ter uma recepção negativa por parte da crítica. O filme tem seus méritos, mas é difícil acreditar que alguém o julgue a melhor produção de todo um ano.

O enredo é sobre um pai ausente (George Clooney, de Tudo pelo Poder) que precisa se reconectar com as filhas depois que sua esposa entra em coma por causa de um acidente. Nesse ambiente totalmente desfavorável, ele descobre que a mulher estava sendo infiel.

Os Descendentes emociona e envolve, porém não escapa de alguns vícios, identificáveis para quem está acostumado a ver comédias dramáticas do cinema independente estadunidense. Mesmo assim, não merece o tipo de crítica que se viu quando Quem Quer Ser um Milionário? chegou aos cinemas papando muitos prêmios nos Estados Unidos.


Depois que oito Oscars foram entregues para o filme de amor que flerta com Bollywood, a recepção piorou. É preciso considerar os filmes apenas como filmes, acima das premiações. A recomendação faz ainda mais sentido quando percebemos que o panorama político e o lobby de marketeiros são muito mais influentes do qualidade cinematográfica quando se decide os premiados de Globo de Ouro, Oscar e afins.

Peguemos como exemplo o ano de 2011, quando O Discurso do Rei e A Rede Social foram os grandes vencedores da temporada de prêmios. Os dois títulos são bons, mas estão longe de serem os maiores feitos cinematográficos de uma safra.

A torcida é que depois de 26 de fevereiro, quando serão conhecidos os escolhidos da Academia, as opiniões sobre as qualidades de Os Descendentes não sejam influenciadas pelo o que acontece fora das salas de cinema.


Os Descendentes (The Descendants)
Direção: Alexander Payne
Roteiro: Alexander Payne, Nat Faxon, Jim Rash
Elenco: George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Nick Krause, Patricia Hastie
Duração: 115 minutos
País: EUA

Nota: 7

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Entrevista: Edu Fernandes: Sem Roteiro

Há alguns meses, dei uma entrevista para Carolina Salomão e Thais Sawada, estudantes da Faculdade Cásper Líbero (SP). O trabalho delas mostrou de forma clara a minha visão sobre qual deve ser o papel do crítico de cinema. Antes de qualquer coisa, agradeço a elas pela oportunidade de expressar o que penso e sinto.

Com a autorização delas, reproduzo o papo que tivemos.

Você pode falar sobre a sua formação acadêmica e profissional?
Eu fiz curso superior de Audiovisual na ECA e me especializei em Crítica e Som. Só que lá eu percebi que o set de gravação não é o local de trabalho que eu queria para mim, eu não me adapto a isso. Aí eu revolvi ir para Crítica, porque desde moleque eu indicava filmes para estranhos na locadora. Eu fui formado em locadora, eu não fui formado em cinema – a minha formação como cinéfilo.
Participei de um site que um amigo meu tinha fundado, independente. Escrevi para esse site toda a vida dele, que foi até o começo do ano passado, quando a gente resolveu desmembrá-lo e cada um seguiu o seu caminho. Mas eu já tinha começado a escrever para algumas revistas.
Comecei o meu blog, o Cine Dude, só para ter uma válvula de escape para as coisas que eu queria expor, mas não encontrava um veículo para comprar aquele material. Atualmente atualizo cada vez menos, infelizmente.

Por quê?
Por falta de tempo. Eu me dedico muito mais a ter o material para o Take Único, que é o meu programa de webTV, e para escrever as coisas para o UOL, que é onde eu trabalho de segunda a sexta. Então no pouco tempo que me sobra, eu escrevo no meu blog, que é quase nada.

Quais são as vantagens e desvantagens de escrever para o blog e de escrever para outras publicações?
A única vantagem no meu blog é a liberdade editorial. O que eu acho que está bem argumentado, eu coloco lá e o problema é unicamente meu.
Na AllTV, eu só tenho uma única restrição, que é manter o programa com classificação livre. Só isso. Eles me dão total liberdade para falar de uma mostra super underground ou do maior lançamento da semana. Claro que eu nunca deixo escapar o maior lançamento da semana, porque acho que os meus telespectadores, ou internautas, querem saber e eu tenho que informar isso para eles. Mas eu tento balancear tanto o cinema pequeno quanto os blockbusters. E tenho uma equipe que me ajuda muito para também ter um pouquinho de história do cinema no programa.
No UOL, tenho já um pouco mais de restrição, porque é uma empresa grande, tem os compromissos da empresa, tem a linha editorial de lá. Mas eu dou muitas ideias na reunião de pauta. Tento adaptar uma ideia que eu tinha para o formato do UOL, para ficar algo interessante, que me satisfaça como profissional também.

Para você, quais as qualidades que um crítico precisa ter?
Depende muito do tipo de crítico que você quer ser. Eu sempre digo que escolho o caminho mais difícil, mas que eu acho que é o mais legal. Odeio pessoas que vão pela polêmica fácil. Se eu vejo um filme que eu não gostei, posso muito bem fazer o texto: “o filme é uma porcaria”. Porque aí eu já quebro qualquer relação de amizade que eu possa ter com a pessoa que gosta daquele tipo de coisa.
Então se é algo que eu não consigo achar graça pessoalmente, como Sex and the City 2 – eu, um homem, não consigo achar graça naquele negócio consumista. Para mim, é um filme pornô, em que em vez de sexo tem compras. Eu não consigo. Então eu vou achar formas de ou ver qualidades naquilo – como no último filme, a cena em que elas falam sobre o quão difícil é ser mãe é maravilhosa – ou uma forma educada de dizer por que talvez valha a pena assistir a uma comédia romântica como Ele não Está tão a fim de Você. Essa é a maior qualidade.

Mas sempre respeitando a sua opinião.
Na verdade, respeitando o público. Porque quem vai pagar o ingresso caro não sou eu. Eu não pago para ver filmes. Eu vejo profissionalmente. Então eu tenho que pensar que as pessoas que pagam têm que fazer valer aquele dinheiro. Eu não vou falar para a minha avó assistir a um filme de ação que eu achei muito bom. Ela não vai gostar. Eu tenho que pensar no que ela vai gostar e em que pontos ela vai gostar de tal filme. E é isso que eu tenho que colocar no meu texto.

Então você pensa em agradar a todos os públicos?
Eu penso em agradar ao público de cada filme. Quando vou ver Crepúsculo, tenho que pensar na minha prima de catorze anos. Quando vou ver Os Mercenários, tenho que pensar no meu amigo de infância que adora filme com tiro e explosão. Esse é, na verdade, o maior desafio: manter as referências das pessoas.
Por exemplo, eu parei de acompanhar a produção de televisão infantil em Pokémon. Mas sei que tem Ben 10 hoje em dia. E tenho que conhecer o mínimo de Ben 10. Porque senão eu não consigo me comunicar com as crianças.
E para o tipo de carreira que eu quero seguir, que não é uma crítica acadêmica, eu tenho que saber me comunicar com elas também. Assim como eu tenho que saber o que a minha avó achava legal no cinema na década de 50. Acho que esse é o maior desafio do crítico.

Como você lida com o público que não gosta da sua crítica?
No blog eu modero os comentários. Qualquer comentário, bom ou ruim, inteligente ou imbecil, que não tenha palavrão, eu aprovo a publicação. Eu só não deixo palavrão. Se a pessoa responde a um texto meu discordando, sem falar palavrão, mesmo questionando a minha autoridade sobre aquilo, eu tenho que dar uma resposta bem educada.
Aconteceu isso num blog que republica os meus textos. Eu fiz um texto sobre Velozes e Furiosos 5, falando sobre como ele tratou errado o Brasil, que ele mostrou que nós temos um trem maravilhoso e que a nossa polícia é corrupta. São duas coisas que a gente pode ficar ofendido. Uma parcela considerável da nossa polícia é corrupta. Mas o que me surpreende é que pouca gente pouco falou desse trem, que é maravilhoso e a gente não tem no Brasil. Foi esse o tema do texto. Aí um cara falou que a polícia americana é estúpida, que ela é corrupta, falou um monte de coisa e falou que eu tinha um intelecto de mico. Eu respondi que eu não falei que a polícia americana não era corrupta, dei exemplos de filmes que mostram isso e falei que quando duas pessoas não concordam, a primeira que ofende a outra tende a ser a que tem intelecto de mico.
Então eu tenho que encarar primeiro se a pessoa merece uma resposta. Tem gente que fala: “o seu texto está muito ruim”. Eu publico e deixo. Não tem o que responder.

Como é a sua metodologia? Você faz anotações durante o filme?
Não, porque eu acho que vou me desconcentrar. Primeiro eu incorporo o personagem: se eu tenho que ser uma menininha, se eu tenho que ser um senhor de idade, se eu tenho que ser a minha mãe, se eu tenho que ser um cinéfilo que adora filmes obscuros. Eu tenho que pensar em quem eu vou ser nesse dia. Acabei de ver aqui o filme do Foo Fighters. Um documentário. Então tenho que pensar como fã de Foo Fighters, que eu gosto um bom tanto, mas tem outras [pessoas] que gostam muito mais.

Você lê a sinopse antes?
Não. Se é um filme que eu sei do que se trata, eu crio o personagem antes. Eu gosto mesmo é de não saber. Às vezes eu não lembro nem o título. Eu só sei o local e o horário da sessão. Quando você tem o olho treinado, pelos créditos iniciais e pelas primeiras você já tem ideia que tipo de filme é. Então você já se concentra nesse tipo de público.
E durante o filme, às vezes eu consigo, na minha cabeça, já fazer frases do meu texto. Lembrando de outro filme, de uma música, fazendo uma comparação com a vida real. E aí eu tento memorizar essas referências para depois colocar no meu texto.
Eu gosto de ter pelo menos uns dois dias para ter certeza que o filme é bom. Porque às vezes a gente não sabe que o filme é bom agora. A gente sabe daqui a algumas horas, no mínimo. Quando acontece alguma coisa e você relembra de uma cena. A cena ficou na sua cabeça e isso prova que o filme tem mérito nesse sentido. Isso aconteceu comigo quando eu vi O Segredo de Seus Olhos.

Como você identifica uma crítica de qualidade?
Depende da qualidade que você quer. Às vezes a pessoa vai pela polêmica gratuita, para conseguir atenção, mas ela consegue argumentar bem. Então você não pode dizer que é ruim. Eu acho errado, mas eu não digo que é ruim.
Primeiro, o mais importante é saber se está bem escrito no sentido de gramática. Porque muitas pessoas não sabem escrever. Elas não conseguem expressar em palavras aquilo que sentiram vendo o filme. O primeiro ponto é esse: se ela está bem escrita em termos de português. Depois, se está bem argumentada. Terceiro, se está coesa. Porque é muito complicado de conseguir, em um texto, começar a falar de direção de arte e acabar falando de referências em uma música. A coesão em um texto, assim como a coesão em um filme, é muito difícil. Eu acho que esses são os pontos que você tem que procurar em um texto.

O que você faz quando as qualidades e os defeitos de um filme têm pesos iguais e você fica em dúvida sobre a conclusão do texto?
Eu vejo as qualidades e os defeitos, vejo o que vai ser mais decisivo para o público-alvo. Se aqueles defeitos vão ofender mais do que aquelas qualidades vão agradar. E aí eu vejo qual lado pesa mais e sigo por ele.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Meta-crítica: A ditadura da ousadia

 por Edu Fernandes


Spoilerômetro
Bruna Surfistinha •
O Discurso do Rei •
Os Incríveis •

Para inaugurar essa seção, destinada a pensar o ofício da crítica de cinema, resolvi discutir um hábito de alguns críticos, que taxam negativamente os filmes por serem caretas. Quando uma produção adota tal postura, escolhe-se seguir fórmulas consagradas pelo gênero ao qual o filme pertence.

Apesar do que parecem pensar alguns críticos, não há qualquer problema nisso. Se não há uma clara tentativa de testar os limites da linguagem, é mais do que esperado que o filme seja careta. A acusação só é válida quando o diretor (ou outra pessoa responsável pela obra) dá declarações que façam com que as expectativas em relação ao filme sejam outras.

Um exemplo dessa crítica que quer sempre achar ousadia está na recepção de Bruna Surfistinha. A história da prostituta que virou celebridade virtual é contada linearmente, com narração da protagonista em alguns pontos, com fortes cenas de sexo que exploram muitos fetiches. Exatamente o que se esperaria da produção. Não há necessidade de ousadia.

Outra vítima foi O Discurso do Rei, que recebeu algumas duras críticas (especialmente de amadores) por sua caretice. A pequena revolta contra a história do rei inglês gago foi causada pela vitória da produção no Oscar. Se a Academia prefere não premiar um filme mais ousado, como A Origem, é a própria Academia que deveria ser alvo de críticas e não o seu vencedor.



Para ilustrar a falta de senso nessa suposta obrigação com a ousadia que alguns críticos parecem procurar, usemos a fala mais genial do filme Os Incríveis (2004). Quando explica seu plano, o vilão Síndrome diz que venderá equipamentos que concederiam a qualquer comprador a possibilidade de ter habilidades sobre-humanas. Desta forma, segundo eles, todos seriam supers.

Depois da explicação é que vem a fala genial, dita quase como um cochicho. O vilão diz: “E aí, ninguém mais vai ser [super]”. É a mesma coisa com os filmes. Se todos os filmes fossem ousados, nenhum seria.