quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Corações Sujos: A lente da discórdia

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)


A maioria das críticas sobre Corações Sujos vai discorrer das diferenças que o filme tem com o livro que originou seu roteiro. Como não li o texto, não posso seguir esse caminho, mas escolhi outro tema: o uso de lentes de efeito.

A fita conta a história de imigrantes japoneses no Brasil. Em 1945, a maioria deles ser recusava a acreditar na derrota de sua pátria na Segunda Guerra Mundial. Com isso, começou um conflito armado entre os imigrantes.

Entre uma cena e outra, o diretor Vicente Amorim (Um Homem Bom) usa uma lente que distorce a imagem. O problema é que esse recurso estético é empregado sem qualquer critério narrativo e não colabora para o desenvolvimento do enredo. A lente entra no jogo apenas como uma afetação.


Essa teimosia estética me lembra de quando tinha ganhado minha primeira caixa de lápis de 24 cores (antes eu estava limitado a 12 cores). Eu pintava todos os objetos possíveis (roupas, carros,...) de verde-água, animado com a novidade. Eu tinha 9 anos.

Corações Sujos tinha muitas trilhas narrativas interessantes que poderiam ser traçadas, já que a premissa é pungente. O filme podia transportar para tela a tensão e emoção que dizem conter as páginas de Fernando Morais, ao invés de ser frio. Outra opção seria explorar a dualidade dos imigrantes japoneses, apegados a suas raízes, mas que se comportam como eternos estranhos no ninho. Infelizmente, não há profundidade para essa discussão.

Ao invés de optar por qualquer coesão narrativa, parece que o filme perde muito tempo encantado com o recurso ótico. Se tivessem quebrado a tal lente logo no primeiro dia de filmagem, suspeito que o resultado final seria melhor.


Corações Sujos
Direção: Vicente Amorim
Roteiro: David França Mendes
Elenco: Tsuyoshi Ihara, Takako Tokiwa, Eiji Okuda, Shun Sugata, Kimiko Yo, Eduardo Moscovis, Celine Fukumoto
Duração: 90 minutos
País: Brasil

Nota: 3

Corações Sujos foi visto no Festival do Rio 2011

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

À Beira do Caminho: Emoção e envolvimento

 por Edu Fernandes

Spoilerômetro: • (?)


Quem acompanha o CineDude já deve ter lido algum artigo por aqui sobre o bom uso que o cinema francês recente faz de crianças no elenco. Nessas publicações (a última foi A Guerra dos Botões), eu ressalto que o Brasil não tem a mesma competência. Pois bem, de tempos em tempos surge um filme que me contradiz. É o caso de À Beira do Caminho.

O ator estreante que me faz pagar a língua é Vinícius Nascimento. No novo filme de Breno Silveira (2 Filhos de Francisco), o garoto interpreta Duda. Ele perdeu a mãe e quer ir do Nordeste a São Paulo conhecer o pai. Para isso, entra clandestinamente no caminhão de João (João Miguel, de Xingu).


O motorista é um homem solitário que carrega dívidas com seu passado. A relação que ele trava com o pequeno intruso é atribulada, o que se transforma em um desafio de interpretação para a dupla. João Miguel é tido como um dos melhores atores de cinema da atualidade. Só de não ficar descompassado, Vinícius já seria vitorioso. No entanto, o menino vai além e em diversas oportunidades rouba a cena.

A boa direção de atores é apenas mais um elemento na receita alinhada de À Beira do Caminho. A desfragmentação do passado de João faz o espectador aproximar-se lentamente do caminhoneiro, da mesma forma que acontece com Duda. No final, a emoção fica à flor da pele e o coração bate acelerado.

O roteiro é inspirado em canções de Roberto Carlos, que estão na trilha do filme na voz do rei e de outros cantores. Por isso, é preciso fazer um pedido aos fãs: cinema não é karaokê ou casa de show. Nada de cantar e atrapalhar a sessão dos outros, combinado?


À Beira do Caminho
Direção: Breno Silveira
Roteiro: Patrícia Andrade
Elenco: João Miguel, Vinícius Nascimento, Dira Paes, Ângelo Antônio, Ludmila Rosa
Duração: 90 minutos
País: Brasil

Nota: 8