por Edu Fernandes
Spoilerômetro: • (?)
Dr. Seuss (O Grinch, Lórax) é um renomado autor de literatura infantil. Apesar de seus livros serem dedicados às crianças, muito do que ele escreve pode ser aplicado à vida adulta, como: “Seja quem você é e diga o que quiser. Porque aqueles que ligam não importam e os que importam não ligam”. Esse pensamento seria interessante para os personagens de dois filmes em cartaz na Mostra de São Paulo.
Shun Li e o Pescador (Io sono Li) aborda a questão da imigração na Europa pelos olhos de uma trabalhadora chinesa (Tao Zhao, de Em Busca de Vida) que está na Itália cuidando de um bar. Por causa de seu trabalho, entra em contato com muitos habitantes locais e faz amizade com Bepi (Rade Serbedzija, de Busca Implacável 2), um velho pescador que gosta de fazer rimas.
A relação entre os dois é vista com maus olhos pelos outros clientes italianos do recinto e pelos conterrâneos de Shun Li. O preconceito bilateral ameaça trazer graves consequências para a vida de ambos.
Com essa história, Shun Li e o Pescador consegue abordar de forma humana um tema em voga na atualidade. No entanto, com altas taxas crescimentos econômicos anuais na China e a crise europeia, faltou ao roteiro uma boa explicação para Shun Li ter saído de sua pátria, deixando seu pai e seu filho para trás.
O tema da opressão alheia é usado em Herança (Inheritance) em uma família inteira. Cada um dos cinco irmãos não consegue viver plenamente por se preocuparem com o que os outros vão pensar. Nesse caso, o cenário cultural do Oriente Médio é que apresenta consequências graves.
Um dos mais preocupados de todos é o irmão mais velho, mas ele mesmo tenta esconder suas dificuldades financeiras. De família católica, Salma (Clara Khoury, de A Noiva Síria) é casada com um dos irmãos e todos culpam as diferenças religiosas pela infertilidade do casal. A caçula Hajar (Hafsia Herzi, de A Fonte das Mulheres) está envolvida com um professor inglês (Tom Payne, de A Vida num Só Dia) e é mais um motivo de vergonha para a família.
Os outros dois irmãos estão ligados com política. A mais velha (Hiam Abbass, de Lemon Tree) é casada com um desocupado que quer opinar sobre tudo. Ele ajuda o outro irmão da família com sua campanha para prefeito, mas o comportamento adúltero e violento do candidato tem o potencial de afundar a eleição.
Enquanto todos perdem tempo com pecuinhas, há sempre a preocupação de bombardeios israelenses. Com esse microcosmo, Herança faz uma bela crítica social. Todos os personagens não têm moral para apontar os defeitos dos demais, já que é cada vez mais difícil esconder tanta sujeira debaixo do tapete. Esse jogo de aparências hipócrita é o ponto forte do filme.
Shun Li e o Pescador (Io sono Li)
Direção: Andrea Segre
Roteiro: Andrea Segre, Marco Pettenello
Elenco: Tao Zhao, Rade Serbedzija, Marco Paolini, Roberto Citran, Giuseppe Battiston
Duração: 100 minutos
País: Itália, França
Nota: 7
Herança (Inheritance)
Direção: Hiam Abbass
Roteiro: Hiam Abbass, Ala Hlehel, Nadine Naous
Elenco: Hafsia Herzi, Hiam Abbass, Yussef Abu Warda, Clara Khoury, Tom Payne
Duração: 88 minutos
País: França, Israel, Turquia, Palestina
Nota: 8
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quinta-feira, 1 de novembro de 2012
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Um Doce Olhar
Sinopse: O pai de Yusuf trabalha como apicultor. O garoto vive com a família na zona rural e seu maior desafio é aprender a ler.
Ficha Técnica
Um Doce Olhar (Bal)
Direção: Semih Kaplanoglu
Roteiro: Semih Kaplanoglu, Orçun Köksal
Elenco: Erdal Besikçioglu, Tülin Özen, Alev Uçarer, Bora Altas
Duração: 103 minutos
País: Turquia, Alemanha
Vagarosidade sensível
por Edu Fernandes
(Spoilerômetro: •)
O filme Um Doce Olhar (Bal) chega aos cinemas brasileiros com altas credenciais por ter sido o grande vencedor do Festival de Berlim. No entanto é bom frisar que não se trata de um filme para as massas.
Tudo nessa produção converge para que o resultado final tenha um andamento muito mais arrastado do que a maioria dos filmes. A começar pelo personagem principal, um garoto tão introvertido que não se mistura com as outras crianças durante o recreio.
O enredo não conta com reviravoltas abruptas e é visto pelos olhos do próprio Yusuf, que tem poucas falas exatamente por causa de sua personalidade reservada. Por outro lado, o menino é uma graça e seus olhos combinam muito bem com o título que o filme ganhou por aqui.
A direção é o ingrediente final dessa receita que pode funcionar como sonífero para o espectador não-habituado a essa levada. Kaplanoglu insere bastante tempo morto nas cenas de Um Doce Olhar.
Apreciar o filme é como observar as mudanças das estações do ano em um jardim: é um fenômeno muito bonito, mas que leva um certo tempo para acontecer e requer paciência para saboreá-lo.
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